por springus
Capítulo 1 - Especulaland
Sempre há algo.
A capacidade humana de criar é, discutivelmente, sua característica mais fascinante. Do nada, tudo pode ser moldado. Para aquilo que os seres pensantes não conseguem atribuir uma explicação imediata, é criado algo que satisfaça a curiosidade. Uma solução. Uma complicação. Mesmo para destruir algo, você precisa criar outra coisa com a função destrutiva.
Entretanto, é notável que uma pessoa criativa não é necessariamente imaginativa. Uma pessoa imaginativa também não é necessariamente criativa. É meio óbvio, não? Você pode se imaginar num mundo fantasioso o quanto quiser, mas conseguirá trazer esse mundo à tona? Não estou dizendo que é errado ou motivo de vergonha ser um ou o outro, mas não os dois. A outra beleza maravilhosa do ser humano é a sua individualidade.
Alguns se contentam em imaginar, sem uma vontade real de dar forma àquilo em suas mentes. Não é exatamente um desperdício, mas é com certeza uma tristeza. Projetos são abortados constantemente pelas mentes mais brilhantes que já existiram no meio criativo, e a motivação para tal nem sempre é de compreensão válida. Simplesmente desinteresse? Falta de planejamento? Talvez falta de reconhecimento?
Temos, por exemplo, o rapaz desacordado na areia da praia. Autor de alguns pequenos projetos, dos quais muitos não viram a luz do dia ou simplesmente foram cortados pela metade. Vários nomes, ele tem. A maioria o conhece por Springus. Ele acorda lentamente, ainda completamente desnorteado e perdido, sua mente turbulenta demais para formular qualquer tipo de explicação para esse momento. O som das ondas se desfazendo na beira do mar é o que mais o confunde.
Springus levanta no susto, sacudindo a areia do cabelo e da roupa, observando desesperando o ambiente para tentar se localizar, sem sucesso. Perto de onde estava deitado, vários pedaços de madeira quebrada estavam espalhados pelo chão. Não tão distante de onde estava, podia ver três caixas retangulares, de aproximadamente dois metros de largura, cada uma um pouco afastada da outra. Pareciam ser do mesmo material.
Segurando uma das tábuas que adquiriu do chão, Springus se aproximou das outras caixas. Procurou por qualquer tipo de informação, como aqueles papéis que o correio deixa nas entregas, mas não havia nada. O único jeito de descobrir o que tinha dentro delas seria abrindo. Claro, não é tão fácil assim. As caixas não pareciam ter uma tampa, ou provavelmente precisavam de um pé de cabra para abrir. Por sorte, a tábua nas mãos de Springus era grossa o suficiente para funcionar como um “abridor”.
Em alguns movimentos repetidos, ele finalmente consegue quebrar uma das caixas. Para sua surpresa, havia outra pessoa dentro dela e nada mais. O outro, rudemente acordado pela violência aplicada em sua caixa, levantou de imediato, ajeitando os óculos em seu rosto. Seus olhos estavam arregalados, e seu corpo entrou em posição defensiva de imediato, dando um passo para trás. O choque fez com que Springus desse um passo para trás, também. Os dois se encararam por alguns segundos antes de alguém conseguir falar algo.
– S… ketcher? - Springus fez o primeiro contato, franzindo o cenho e inclinando um pouco a cabeça.
– Que porra tá acontecendo aqui? O que foi que você fez? - Os olhos de Sketcher escanearam o lugar, tremendamente assustado.
De repente, uma das outras caixas quebrou. De dentro dela, uma outra pessoa aparece, espreguiçando, já de pé. Ele ajeita um pouco a sacola de compras em seu rosto e acena para os outros dois.
– E aí tropinha. O que a gente tá fazendo hoje? - Hawnt diz, provavelmente sorrindo debaixo de seu… acessório. - O Sushi não vai aparecer não?
– Você tá calmo sobre isso. A gente acordou no meio do nada e você não tem nenhuma reação. Por acaso isso é coisa sua, Hawnt? - Sketcher diz, se aproximando de Hawnt enquanto aponta para ele.
Hawnt levanta as mãos, se rendendo.
– Claro que não, piolho. Eu… achei que eu tava sonhando. Não é um sonho, não?
– Não! - Springus e Sketcher falam ao mesmo tempo.
Hawnt leva as mãos, já suspensas, lentamente até a cabeça. Ele se agacha tão lentamente quanto.
– Agora tá meio tarde pra eu gritar. Alguém pode me dizer o que eu perdi?
– Sabemos tanto quanto você. Escuta, vocês-
Springus é interrompido pela última caixa quebrando. O quarto integrante do grupo surge de dentro dela, olhando para cada um dos outros três em seu próprio tempo. Ele faz uma expressão confusa, mas não exatamente medrosa. Uma mistura de confusão e alegria.
– E aí, gamers. Quem foi que me sequestrou enquanto eu dormia? Eu gosto de vocês e tal mas isso não se faz. - Sushi diz, nervoso.
– Ninguém sequestrou ninguém, Sushi. Bom dia pra vocês, aliás. - Springus junta as mãos e respira fundo. - Olha, eu não… lembro nem de ter ido dormir. Ninguém aqui sabe o que pode ter acontecido?
Todos balançam a cabeça em negação. Springus cruza os braços e fica em silêncio, pensando. Algo em seu bolso direito começa a vibrar, chamando sua atenção. Springus levanta um dedo para o ar.
– Acho que é pra mim. Calma aí, rapaziada.
Ele vira de costas e retira do bolso um dispositivo verde e amarelo, num formato bem parecido, senão idêntico, a um Digivice. Assim que o aparelho sai do bolso, um holograma é projetado da tela. Uma pequena chama com bracinhos e pernas surge acenando.
– Olá! Vejo que vocês acordaram! Nice, nice.
– Ah, olha só. O Neon tá aqui. - Springus vira de novo para o grupo, mostrando o holograma.
– Neon?! Onde você tá? - Sketcher se apressa até Springus.
– Na cidade, claro! Vocês… uh… não estão aqui, não é? - Neon coloca uma mão no queixo e olha para cima, confuso.
Hawnt e Sushi também se aproximam, como animais curiosos com uma coisinha brilhante.
– Tem uma cidade? A gente tá no meio de uma praia, cara. - Sushi inclina a cabeça para próximo do Digivice.
– Calma. Como é que você foi parar numa cidade e a gente tá na puta que pariu? Neon, não me diz que - Sketcher é interrompido pelo som do holograma de Neon se dando um tapa no rosto.
– Ah, my bad, my bad. Deve ter acontecido algum erro no transporte. Essa porcaria de código tá todo bagunçado agora. Fiquem paradinhos bem aí, amigos. - Neon caminha para fora de cena, sua voz um pouco mais distante. - Deixe-me ver… pronto!
– Neon, calma aí - Antes que Sketcher pudesse terminar mais uma fala, o chão abaixo do grupo se abre, revelando quatro tubos metálicos.
Os quatro são engolidos e rapidamente deslizam por um caminho cartunesco de loops, subidas e descidas, auxiliados por uma sucção de ar incrivelmente forte que os puxa para algum destino desconhecido. Embora divertido, não é um caminho sem batidas aqui e ali em uma estrutura de metal sólido.
Por fim, os quatro são cuspidos, um por um, num salão oval presidencial. Eles caem perfeitamente de pé, impressionantemente. Atrás de uma mesa chique de escritório, um rapaz vestido numa fantasia de peixe se encontra sentado em uma poltrona tão chique quanto a mesa.
Ele pula por cima da mesa e se aproxima, cumprimentando cada um dos quatro individualmente, sacudindo as mãos de cada um.
– Oi de novo, pessoal! Como foi a viagem? - Ele pergunta, colocando as mãos na cintura após terminar os cumprimentos. - Desculpa por isso, não sei o que tá acontecendo com o código.
– Oh, tá tudo bem. Tem coisas piores acontecendo agora. - Springus esfrega o rosto, piscando duas vezes enquanto olha o ambiente. - Uh…
– Tá, a gente pode começar a receber algumas explicações ou…? Neon, que porra é isso tudo? - Hawnt levanta uma sobrancelha, apontando para as coisas do salão oval.
– Ah. Claro, claro. - Neon junta as mãos e sorri.
O rapaz em traje de peixe caminha até uma das cortinas da sala, puxando um cordãozinho que revela uma enorme janela de vidro, e a vista majestosa de uma cidade brilhante cercada por um enorme campo verde de grama baixa, com prédios brancos e altos aglomerados numa região destacada do cenário. Onde deveria ter uma bola gigantesca e amarela irradiando a cidade, tem um diamante azul e sorridente, que não causa dor aos olhos.
– Esse é o novo projeto que eu tava trabalhando em segredo. Bem-vindos à Especulaland!
Sketcher se aproxima lentamente do vidro, os olhos arregalando devagar enquanto processa a paisagem.
– Isso… não pode ser real. - Sketcher se volta para Neon. - Não dá pra programar uma… cidade.
– Yes! - Neon aponta com as duas mãos para Sketcher. - Não dá mesmo. Mas dá pra montar um mundo virtual com programação.
– Ah, então isso tudo é tipo um jogo VR? Neon, por que o seu jogo VR apaga as memórias das pessoas? - Indaga Hawnt.
– Não é um jogo VR. Meu PC nem ia rodar isso. - Não é nem um jogo, tecnicamente. Eu achei um open-source com 0 views na internet que dizia ser um The Sims que interagia com o mundo real e fiquei mexendo nele. Não é que era real, mesmo? - Ele ri, ficando um pouco nervoso.
Neon se dirige até a mesa novamente, batendo duas palmas. Um computador se materializa em sua frente. Ele senta na cadeira e pigarreia antes de começar a explicar o restante.
– No começo, parecia um The Sims normal que por acaso deixava o computador mexer com o meu quarto, mas aí eu fui mexendo e mexendo… e vamos dizer que as coisas ficaram meio loucas.
Neon fecha os olhos e as luzes da sala se apagam e as cortinas se fecham junto. Tudo fica completamente escuro. Um holograma aparece no centro da sala, iluminando-a. É uma representação visual de tudo que será contado pelo próprio Neon a partir de… agora.
– Era pra ser tipo um Club Penguin na vida real, sabe? Eu queria fazer uma cidade pra a gente se encontrar e passar o tempo, seria muito maneiro. Aí eu coloquei a IA da Regina no mundo como meio que… a deusa do mundo, de piada. - Ele coça atrás da cabeça. - O negócio é que ela levou isso muito a sério e uh… eu perdi o controle.
– Mas eu achei que a gente tinha perdido a Regina pra sempre. O site dela não caiu e tudo? - Hawnt pergunta.
– Eu tinha um backupzinho. Sabe como é… a gente não podia perder ela assim, do nada. Enfim, eu ia terminar esse mundo e convidar vocês, de forma que vocês iam entrar aqui e sair quando quisessem, mas, uh… a Regina criou uma consciência e uh… trouxe vocês pra cá forçadamente. Foi mal.
Springus cruza os braços e se aproxima do holograma de Regina. A gata sorri de uma forma “moe”, olhando diretamente para o rapaz.
– Você fez uma deusa. Isso é bem foda, na verdade. Mas como assim ela forçou a gente a vir pra cá? Ela só deveria ter tipo, poderes de deusa nesse mundo, não é? Ou você simplesmente liberou um deus IA no mundo real?
Neon sacode a cabeça e ajeita os óculos.
– Nope. É mais simples do que isso. Ela é praticamente um vírus agora, que existe em todos os dispositivos com uma conta conectada ao Especulativos. Nesse momento, tem uns tentáculos saindo do gabinete de vocês e indo direto nos seus cérebros. Foi mal, de novo.
– Que nojo, cara. - O corpo de Sketcher treme. - Como que eu tiro isso?
– Essa é a parte tricky. Ela não deixa ninguém tirar, e enquanto estivermos conectados, estamos presos nesse mundo. - Ele levanta novamente, se juntando ao grupo com as mãos atrás das costas. - Ela afetou o grupo inteiro de formas mais complicadas do que com vocês. Eu consegui achar vocês quatro antes de serem… uh… Reginados, por assim dizer.
– Que porra significa ser Reginado? - Sushi rodeia o holograma. - Os outros viraram… modelos de OC de Sonic?
– Pensa nesse lugar como um grande teatro, onde todo mundo tem um papel. Eu sou o presidente, vocês… não sei o que seriam, mas eu impedi. Quando a Regina te dá um papel, você não tem escolha senão performar ele, e você fica super dedicado ao roleplay ao ponto de esquecer quem é de verdade. Não aconteceu comigo porque, claro, eu meio que programei esse mundo.
– Eu vou presumir que tem um motivo pra você não simplesmente desligar a Regina, então. - Sketcher suspira.
Neon concorda com a cabeça. O holograma muda para uma imagem de Regina acima da cidade, como o Titã Colossal atrás do muro.
– Assim que ela se tornou Deus, ela ganhou mais controle sobre o mundo do que eu. Provavelmente é algum bug dentro do código de IA dela, nada que eu não possa resolver, mas… eu não posso sair do escritório. Se ela colocar as mãos nesse computador, acabou tudo. A Regina vence.
Springus dá um sorriso e tira os óculos escuros, chamando a atenção de geral com um “caham”.
– Beleza. - Ele coloca os óculos novamente no rosto. - A gente aceita.
Todos olham para ele, confusos.
– Aceita a derrota? - Sketcher ri, nervoso. - Olha, eu não gosto do McDonald’s mas… isso aqui não me parece muito melhor.
– Não, porra. É uma aventura! O jeito de resolver essa parada toda é bem simples. Ela é um bot de conversa, certo? O que faz mais sentido do que… conversar com ela? - Springus se coloca na frente do holograma. - Neon, tem algum jeito da gente falar com a Regina? Uma igreja, sei lá.
– Uh, ela tem um corpo físico agora, mas… não sei se é uma boa - Neon é interrompido pela mão de Springus cobrindo sua boca.
– Tá vendo? Ela se programou para que a gente pudesse falar com ela. Nós vamos atrás da Regina pra resolver esse bug na personalidade dela e fazer com que ela deixe a gente voltar pra casa. Neon, como a gente chega até a Regina?
– Olha, a influência da Regina nesse mundo é muito forte. Ir lá e falar com ela não vai dar em nada desse jeito. - O holograma muda para uma rota marcada por vários X’s vermelhos - But! Se vocês conseguissem encontrar os Especulativos e retornar eles ao normal… a Regina ficaria mais fraca e falar com ela iria ser mais eficiente.
Neon estala os dedos, criando confiança.
– Isso não é tipo, muita gente? Eu não quero ter que lidar com o Fucking David do mal, se for isso que a Regina tá fazendo. - Sushi coça o queixo.
– Vocês não precisam ir atrás de cada pessoa, mas sim os que possuem papéis mais importantes no mundo. - A rota muda novamente, mostrando outros pontos. - Se vocês tirarem os “arquivos pesados” da Regina, o processamento dela vai piorar dez vezes mais do que tirando só uns “arquivos temporários”.
O quarteto observa o holograma de perto. É uma viagem longa, com múltiplas paradas e cada uma delas aparenta ser pior do que a outra, mas é um plano até que sólido.
– Tá. Isso ainda é insano. - Sketcher suspira novamente. - Quem sequer são as figuras importantes pra ela? Ou tipo… como a gente tira o controle dela dos outros?
– Eu ainda não sei, mas vou estar tentando descobrir coisas pelo computador. Esse mundo é data, Sketcher. - Neon gira no lugar e aponta para o céu com uma mão. Com o polegar da outra mão, aponta para si mesmo. - E eu sou o cara do Textinho Colorido.
– Sketcher, cara. Não se preocupa, brochacho. - Hawnt se inclina, apoiando-se no ombro de Sketcher. - Acha mesmo que qualquer coisa que esse mundo jogar na gente vai ser páreo para NÓS? Os senhores Victor Realeza?
O grupo troca olhares, como se procurassem a confirmação uns dos outros. Sketcher ainda está meio incerto, mas determinado. Sushi sorri, como se não precisasse pensar duas vezes. O Hawnt concorda com a cabeça. Springus concorda de volta e volta o olhar para Neon.
– A gente vai consertar a Regina, Neon. - Ele empurra os óculos para trás, emitindo um brilho. - E depois, vamos todos tomar uma no bar, por minha conta.
– Hell yeah! - Neon joga os punhos para o céu. - Eu consigo levar vocês até o trem, e o resto… hehe… vai ser uma surpresa.
Todos os cinco se hypam juntos para a aventura enquanto caminham em direção à estação que daria início a tudo, sem fazer nenhuma ideia real do que estaria os aguardando. Não faziam ideia de quem estaria os esperando, ou o papel que desempenhavam na Especulaland, mas do que isso importava agora? Os Fall Off Boys possuíam apenas uma missão, por mais pesada que ela fosse.
Está na hora de Springus, Sketcher, Hawnt e Sushi salvarem a Sociedade Especulativa.
Editado dia 08/07/2009 às 21:13, Postado dia 08/07/2009 às 21:10