Aurora Dourada - Capítulo 1

por Sketcher

Capítulo 1 - Achados e Perdidos


Todos os sistemas estão operacionais, e todas as fontes de energia já tiveram a sua devida manutenção, feita com muita cautela e minucioso detalhe. Tudo o que faltava era partir, em frente ao próximo destino do duo, rumo ao exo-planeta de Malkuth, uma grande e diversa mistura de diferentes culturas com histórias acumuladas ao curso de centenas de anos, a capital do mundo intergaláctico em que pessoas de todas as origens disponíveis na galáxia federal se encontravam.

Jake, por sua vez, bocejava ao se encostar em seu assento, cruzando as pernas e esfregando o olho para tirar de lá uma lágrima que havia aparecido, fazendo sons de clique com a língua antes de suspirar. Ele não parecia particularmente entusiasmado com a visita a Malkuth, apertando em alguns botões no ecrã de um tablet tão fino quanto papel, que surpreendentemente cabia dentro de umas das pequenas bolsas em seu uniforme de faz-tudo. A tarefa em que se encontrava era uma tarefa comum para ele, se não uma das mais entediantes, já que era capaz de encontrar alguma satisfação em missões mais físicas. Até recentemente, fazia muita obra bruta, aproveitando do fato de ainda ser jovem e cheio de energia e usando sua força em prol dos outros. No assento ao lado estava Skye, futricando nos comandos da nave, enquanto tentava descobrir o que cada um dos botões no painel fazia, e antes que pudesse interromper a viagem ao mexer onde não devia, sentiu um arrepio quando sentiu o olhar desaprovador de Jake. Rapidamente escondeu as mãos nos bolsos de sua bermuda, abaixando a cabeça até o queixo tocar na clavícula, como se a falta de movimento fosse o suficiente para que ele não a percebesse.

– Eu já disse que eu te ensino a navegar o painel de controle um dia desses, então por favor... – Jake parou, colocando as mãos juntas em forma de prece, jogando a cabeça contra a almofada do assento.

– Eu sei, eu sei. – Skye acenou repetidamente, seus olhos já interessados nos detalhes mais insignificantes do interior da cabine. – É só que... eu tô meio ansiosa.

– É?

– Sim, óbvio! – Aumentou o tom de voz, quase como indignada. – E se eu… Sabe, e se eu fizer porcaria?

– Relaxa. Tudo o que você tem de fazer é me seguir e prestar atenção no que eu faço, sacou? Pra além disso, nem é uma missão tão importante assim. É só achados e perdidos. –Jake sorriu, uma expressão de confiança que traía o seu desinteresse na missão.

– ...Tá bom.

Conforme a nave se aproximava do porto espacial, atravessando as diferentes construções circulares maciças de puro titânio e metais dos quais nenhum dos dois havia estudado, diferentes luzes piscavam e brilhavam em padrões hipnotizantes, diferentes sons vindos ambos das máquinas que esquadrinhavam a nave e da própria Aurora Dourada em si, como uma conversa entre sistemas sofisticados que haviam sido criados para um único propósito, limitados a somente a sua função primária. Era um pensamento que Jake mantinha no canto de sua mente, o poder da tecnologia moderna face a escondida primitividade das máquinas que o rodeavam. Seriam elas capaz de ser tão humanos como ele, ou seria ele simplesmente incapaz de ver para além de sua própria atitude depreciadora, atribuindo características as quais elas nunca precisaram recorrer antes? Era verdade, independente do quanto avançasse o metal, a carne ainda possuía o poder para criar um universo com um pensamento, mas nem todo esse espaço era verdadeiramente necessário para o cidadão comum, que acordava todos os dias para fazer o seu emprego insignificante e viver uma vida mundana e insatisfatória, como Jake acreditava viver. No final, talvez o correto seria ser uma máquina, do que viver uma vida onde ele não seria capaz de alcançar o mesmo potencial que via em seus colegas. Ou talvez ensinar para alguém que veio depois a não cometer os mesmos erros que si, para ser uma versão melhor de si mesmo... não, não de si, mas da pessoa quem ele cuidava. Skye não merecia ser comparada a ele.

Ao adentrar a atmosfera e atravessando as poucas nuvens que cobriam o planeta em um dia particularmente ensolarado, a nave suavemente acaba por pousar em um grande porto, semelhante a um parque de estacionamento para massivas construções voadoras, com (quase) todas as mesmas regras de um parque normal. Skye observava conforme uma das naves era taxada com uma multa por ter se estacionado ali para além do tempo permitido, algo que se ela não fosse acostumada com, seria estranhamente cômico visto o tamanho da multa, ainda imprimida em papel, em comparação ao caixão gigantesco de metal ali estacionado. O sujeito policial responsável pela administração da multa, por sua vez, se encontrava dentro de sua cabine voadora enquanto policiava o estacionamento, com uma rigidez comparativa a das próprias máquinas ao seu redor. Sem qualquer delonga, Jake se levantou do banco, caminhando até ao grande alçapão que desbloqueava automaticamente ao escutar ao seu comando de voz. Skye sentia alguma inveja – não possuía a liberdade de gritar o que quisesse e fazer com que a nave a escutasse – mas não iria falar isso por enquanto. Jake parecia estranhamente impaciente naquele momento, e quando impaciente, ele tinha um péssimo hábito de agir de forma mais impulsiva, como tentar apressar as coisas para poder voltar para a nave e passar o dia assistindo a série favorita, e Skye acreditava que agravar tal impaciência naquele momento seria um detrimento para a saúde dele, ou pelo menos era o que ela acreditava. Pois apesar de querer ser capaz de fazer o que ele faz, ela muito frequentemente parava para pensar que talvez seria um pouco imprudente de sua parte. Ele era um exemplo para ela em muitas coisas, mas em termos de autopreservação? Não tanto.

Colocando os pés no chão do estacionamento, os dois caminharam lado a lado, entre as naves e a linha que limitava o espaço em que podiam caminhar livremente, visto que logo a sua direita estava uma estrada onde as naves decolavam, ou onde a bófia costumava passar. Skye segurava a alça do enorme canhão que carregava em suas costas, mais leve do que parecia, tentando evitar sem querer esbarrar este nas naves ao lado. Seria um saco ter de lidar com as consequências de riscar a nave de alguém por acidente, e Jake provavelmente ia ficar bem decepcionado com ela... Ou com muito medo de ter que lidar com tais consequências.

– Tenta agir de forma natural quando a gente chegar lá. – Ao falar, Jake acabou por acidentalmente assustar Skye, que estava perdida em seus pensamentos e sua crescente ansiedade, causando com que ela levantasse a cabeça e consequentemente o canhão em suas costas, esbarrando bem no longo bico de uma nave que mais parecia um pássaro de metal.

– Merda! – Skye gritou, exaltada, abaixando rapidamente a cabeça. Jake olhou para cima, aferindo o dano causado. Era um arranhão substancial. Seus olhos arregalados e sua boca meio aberta, Jake agarrou no braço de Skye, e sem mais uma palavra, correu de forma que se tornasse um borrão, saindo da cena do crime antes que um dos oficiais na área percebe o acidente de sua protegida.

Adentrando a multidão em sua frente, Jake rapidamente pousou a menina, suspirando enquanto olhava em volta, puxando de dentro de uma de suas várias pochetes estampadas pelo seu uniforme um mapa amassado e arcaico da grande metrópole. Era um planeta pequeno, com o tamanho de uma lua, mas a cidade era incrivelmente vasta, fazendo ele questionar como que os estabilizadores de gravidade eram capazes de impedir que todos os prédios que arranhavam as nuvens acima colapsassem nas ruas abaixo com a forma que uns empilhavam nos outros. Navegando pelas estradas ocupadas de Malkuth, os dois nadavam pelo público que tentava encontrar o seu próprio rumo, e contra todas as adversidades, eles conseguiram encontrar o seu destino final – uma pequena loja de eletrônicos anciões escondidos no que poderia ser descrito um buraco na parede entre dois prédios.

– Dia. – Jake passou pela porta, esbarrando nela com o braço, desacostumado com o fato de que ela não simplesmente abria automaticamente. Era uma comodidade hoje em dia, e já a muito tempo, então algo tão bobo assim era capaz de agravar a sua (falta de) paciência. Skye por sua vez, correu logo próxima dele para não levar com a porta na cara. – Qual de vocês é a Lilith?

Ele tirou a mão do bolso, apontando para duas senhoras atrás do caixa que até um momento atrás estavam fofocando sobre seja lá o que acontecia de tão interessante em suas vidas, uma delas parecendo quase mesmo chocada com a pergunta do rapaz.

– Euzinha. – A outra respondeu logo com um sorriso no rosto, ajustando o seu cabelo para atrás da orelha enquanto apoiava os cotovelos no balcão. Ela possuía um implante cibernético em seu olho direito, aparente pelas linhas que corriam do canto do seu olho até o seu queixo, descendo pelo seu corpo inteiro, implicando que talvez o implante era mais profundo do que parecia. De fato, era assustador pensar que as pessoas eram capazes de substituir tanto de si mesmas com pedaços de lata velha, muito menos viver dessa forma. Jake nunca parou para considerar a possibilidade. Afinal, ele preferia antes ter de usar uma cadeira de rodas do que uma perna de metal.

– Sou o Jake. Essa é a Skye, minha protegida. – Ele acenou com a cabeça para o lado, ajustando a gola do seu uniforme conforme Skye acenava para a senhora. – Você pediu pelos serviços da Aurora Dourada?

– Ah, pedi sim. – Lilith sorriu, rapidamente organizando a bagunça que se encontrava no balcão, colocando algumas peças de equipamentos diversos por baixo deste e passando um pano rápido, talvez deixando a superfície do balcão a superfície mais limpa da loja inteira no processo. A senhora ao lado de Lilith riu, fazendo um comentário em uma língua que apesar de Jake não entender, ele foi capaz de se sentir estranhamente ofendido. Não que ele fosse comentar sobre, apesar da indignação estar escrita na cara dele. Ele nunca fez um esforço para aprender nada além da língua comum galáctica, de qualquer forma. – Aurora Dourada, é? Você parece muito mais jovem do que eu achava.

– Eu tenho 27 anos. – Jake respondeu, seu tom monótono. Parecia ser uma implicação que ele escutava com frequência, ao julgar a sua expressão de descontentamento. E ele acreditava ser mais velho do que realmente era. – De qualquer forma, eu só preciso de retirar daqui informação aqui sobre o seu equipamento desaparecido?

Jake agarrou de dentro de uma das suas pochetes uma placa de metal, do tamanho de um livro A4, tocando em seu ecrã algumas vezes antes que essa finalmente respondesse, acendendo e apresentando um aplicativo de escrita. Jake era adepto, escrevendo frases inteiras somente com o dedo indicador enquanto apoiava o dispositivo entre o braço e o antebraço, a interface do aplicativo sendo alienígena até mesmo para Skye, que tinha dificuldade em compreender como que o faz-tudo conseguia sequer compreender os símbolos que ali estavam. Talvez era só uma questão de experiência, ela pensou, conclusão esta que não seria tão incomum em todas as suas indagações futuras relativas a ele.

– Meu rádiozinho… – Lilith, como em uma atuação teátrica, suspirou, se apoiando sobre o balcão enquanto brincava com o brinco em sua orelha direita, olhando para uma estante ao lado onde se encontravam diferentes parafernálias antigas e bugigangas que o cidadão comum não teria razão para manter no dia de hoje. Muitos rádios de centenas de anos atrás, mantidos em condições pristinas (isso é, em comparação a condição que muitos artefactos dessa altura são mantidos atualmente) acumulavam poeira nas estantes, e conforme Skye se aproximava, ela, por falta de melhor julgamento, deslizou o indicador em um deles, uma espessa camada de uma sujeira indescritível se acumulando em seu dedo, colando como se não quisesse se separar dela. Ela tentou limpar o dedo na parede, que se encontrava igualmente empoeirada, muito para o seu descontentamento.

– Um rádio? Eu assumo que... dado os exemplos ali, é um rádio do século... 21? – Jake perguntou, rapidamente anotando alguma coisa em seu dispositivo antes de sequer receber uma resposta.

– Sim. É o meu rádio mais antigo, sabe? Ele continua na nossa família desde que o meu tatara... bem, o meu ancestral comprou o rádio naquela época. No século 22 essas coisas eram consideradas vintage, né? Aí a família decidiu manter o rádio, e mesmo depois que abandonaram a Terra, o rádio continuou sendo protegido. Passa alguns anos pra frente, e ele agora é minha responsabilidade. – Lilith deu uma alta risada, assustando um pouco a dupla, balançando a cabeça logo em seguida. – Aquele neném mal funciona mais, eu tive que gastar bastante pra fazer uns reparos que mantivessem as qualidades vintage dele, tá vendo? Pra piorar, vale um balúrdio.

– E esses aqui? – Skye perguntou por alto, apontando com o polegar para o equipamento na estante, e na loja em geral.

– Esses foram uns achados que minha família teve a sorte de encontrar pelos anos. A gente mantém eles aqui pra os entusiastas de tecnologia antiga, mas nenhum deles é tão velho. O mais velho é do século 25. – Apontou com o dedo, gesticulando para a estante atrás de Skye. - Eu tinha um interesse nessa tecnologia quando eu tinha a sua idade também, bem pequena mesmo, lá na minha adolescência, mas hoje em dia eu só cuido deles pra os meus netos tomarem as rédeas. Mas isso já é...

– Ok. – Jake olhou de relance para a loja, sua atenção rapidamente retornando a Lilith após ter a interrompido. – Você consegue me dar uma descrição do rádio, seja visual ou técnica, e incluindo também a última localização do equipamento e qualquer detalhe que você considere relevante?

– Nossa, direto ao ponto, hein? Ai ai... – Lilith apoiou o queixo na palma da mão, seu olhar agora fixado em Jake. – Então escuta aí.

O duo se encontrava de novo no meio da multidão sufocante de Malkuth, tentando encontrar desvios e caminhos de menor resistência, Jake mantendo um olhar atento ao seu arredor enquanto Skye seguia de perto, segurando na alça de sua arma como se sua vida dependesse disso, constantemente estabelecendo e quebrando o contato visual com as pessoas em sua volta. Ela não tinha exatamente um medo de estar em público assim, mas mal sabia como agir, ou onde colocar as mãos, ou qual pé colocar na frente depois de dar um passo, ou...

– Oi, Skye, você tá bem? – Jake estalou os dedos, parando de caminhar e colocando uma mão no ombro dela. Ele sabia muito bem já como que ela se sentia tendo que caminhar por um lugar movimentado como Malkuth.

– Eu? Eu tô. – Skye acenou, olhando em volta de novo. Pelos vistos tinha perdido o foco de novo.

– Se você quiser voltar pra Aurora não faz mal-

– Não. – A sua voz ganhou uma certa firmeza, talvez uma máscara para sua teimosia. De qualquer forma, pensou ela, seria a última coisa que ela aceitaria agora, abandonar a primeira missão em que ela seria capaz de contribuir qualquer coisa.

– ...Bem, você que sabe. – Ele sorriu, colocando uma mão dentro de um dos bolsos do seu uniforme, procurando alguma ferramenta que pudesse ajudar com a investigação... ou, era isso que Skye achava que ele ia fazer. Na verdade, ele só não tinha mais onde colocar a mão e ele não gostava de deixar ela balançando vazia. Jake sempre queria se apresentar como alguém ocupado e competente, e especialmente para Skye, ele sabia que ela o usava como um ponto de referência. Logo, como referência, bastava a ele ser um bom exemplo. – Mas qualquer coisa, só me avisar, tá?

Skye acenou, engolindo em seco. Queria ela demonstrar confiança e determinação no mesmo nível que ele, mas nesse momento, sentia nada além de um frio na barriga.

– Então… como que a gente vai localizar o rádio? Tudo o que ela disse foi que alguém entrou na loja na meia-noite. Nem dava pra ver a cara do sujeito na gravação. – Ela indagou, cruzando os braços enquanto olhava em volta, como se a procura de pistas.

– Simples. Rádios como esse funcionavam captando radiação eletromagnética e transformando ela em som e vice-versa. Em particular, ondas de rádio. Daí o nome. – Jake sorriu, como se tivesse contado uma boa piada. – Como não é mais uma tecnologia comum desde que tornaram o entrelaçamento quântico em uma comodidade, a gente consegue descobrir se esse rádio ainda tá aqui no planeta enviando uma onda de rádio e revelando a posição dele.

– …Como que cê vai fazer isso mesmo? – Skye semicerrou os olhos, duvidando já o esquema apresentado.

– Aqui. – Semelhante a um truque de mágica, Jake tirou de uma das suas pochetes um estranho aparelho com uma enorme antena. Parecia com um daqueles antigos telefones “tijolões”, salve pela sua estranha interface que possuía menos botões e mais linhas com pequenas alavancas. Jake segurava o trambolho com um cuidado e orgulho que Skye não via muito desde que ele conseguiu pagar por completo a Aurora Dourada, ou desde que ela arrancou o primeiro dente de leite. – Essa belezinha vai enviar ondas de rádio que só o rádio vintage daquela velh- quero dizer, daquela senhora vai ser capaz de captar.

– Não, eu sei como que um rádio funciona. Eu tô falando da parte de revelar a posição.

– Ah, simples. Eu consigo localizar o rádio através do painel aqui. – Segurando no trambolho, Jake apertou em um botão um pouco tanto escondido na parte de trás, revelando um pequeno ecrã retangular que mostrava um layout da região em que eles se encontravam em Malkuth. Parecia pulsar com alguma frequência, igual um sonar. – Esse aparelho é feito especificamente pra localizar outras antenas e essas coisas. Foi projetado como um aparelho de guerra, sabia?

Skye simplesmente deu de ombros, deixando Jake ter seu momento de glória com o trambolho enquanto ele apontava o dispositivo ao ar, igual um louco no meio da multidão. Felizmente para si e para Skye (por motivos bem diferentes), o trambolho logo recebeu um sinal, Jake se aproximando de Skye e se curvando ligeiramente.

– Ali. – Ele apontou no ecrã, mostrando um ponto que não estava muito longe do par. – Esse ponto aqui tá bem distante da loja de rádio da Lilith! Se a gente for rápido… Bem, é só estranho que o sujeito cometeu um roubo e não saiu da cidade logo em seguida…

– Quais são as chances de ser alguém que gostou muito de um dos rádios dela, pagou por ele e… Jake encarou Skye, um olhar de alguém que não precisava de qualquer palavra para comunicar o seu ceticismo.

– …Ok, não, você tá certo, ninguém ia comprar um daqueles.

Em um beco escuro entre dois prédios enormes, um sujeito desajeitado mexia desesperadamente com um rádio, sussurrando reclamações sem sentido enquanto tentava fazer o equipamento funcionar. Ao escutar um rato passando próximo a sua perna, tentou chutar o animal, grunhindo de raiva antes de se apoiar em um incinerador de lixo que já não mais funcionava. Sua respiração saía em rápidas exalações, seu suor escorrendo pelo rosto enquanto seus olhos tremiam como se estivessem ameaçando de saltarem do crânio. Não era assim que isso devia de ser, pensava ele, incrédulo que não havia ainda conseguido alcançar o seu objetivo. Mas antes de poder contemplar tal meta, sua linha de raciocínio foi interrompida ao escutar passos correndo em sua direção. Um adulto e uma criança, conseguiu identificar logo. O adulto era um homem, e parecia ser ágil, talvez forte, composto, não seria capaz de o derrotar em um confronto direto. A criança era uma menina, quase metade do tamanho do outro, mas a forma que os seus sapatos batiam contra o basalto e o ritmo a que os sons eram propagados, parecia estar carregando algo pesado. Uma arma? Desse tamanho? Isso definitivamente faria da garota um perigo maior do que o homem.

O sujeito não pôde arriscar tudo agora, não agora que sentia estar tão próximo de receber o conhecimento que procurava. Faltava tão pouco, e não ia deixar que esse fosse o fim de seu sonho. Deus sabe. Deus sabe que o seu fim acompanharia a sua captura. Deus assiste, e Deus aguarda.

– Ei, é você! – Skye gritou do fim do beco, segurando com força na alça do canhão nas costas. Ainda estava em uma forma de paralelepípedo, como se ela estivesse carregando um enorme sólido de metal.

– MERDA!

O sujeito abraçou o rádio, correndo desesperadamente antes de quase cair no lixo espalhado no chão. Jake e Skye não gastaram um segundo sequer – começaram a correr atrás dele, Jake tomando a dianteira enquanto Skye cobria a retaguarda, retirando das costas o sólido e o empunhando, conforme ele lentamente mudava de forma.

– Ô maluco, tá correndo do quê?! – Jake exclamou conforme acelerava, e antes que pudesse reagir, presenciou o ladrão simplesmente ser ejetado dezenas de metros no ar, utilizando algum tipo de dispositivo que havia afixado às botas, antes de pousar em cima de um dos prédios na selva de metal à frente.

– O que é aquilo?! – Skye disse, esbarrando em algumas pessoas na frente enquanto abraçava o canhão, o qual parecia estar se materializando cada vez mais rápido.

– Droga, se eu soubesse que um ladrão de tralha velha ia usar equipamento de nível militar, eu tinha trago o meu! Skye, atira no chão, mas usa só energia concussiva! E se segura!

– Hã!? Uh, okay!

O canhão na mão de Skye completou a sua transformação, sua forma agora extremamente complexa conforme começou a brilhar, um som agudo preenchendo o ambiente caótico enquanto a multidão se apercebia. Jake rapidamente se agarrou em Skye assim que ela mirou no chão, e em um clarão, os dois foram lançados no ar, uma onda de ar acertando as pessoas em volta. Os dois caíram logo no topo do prédio, Jake rolando no chão enquanto protegia a menina com o próprio corpo. O sujeito que eles perseguiam, por sua vez, foi pego de surpreso quando viu a dupla, quase perdendo o equilíbrio no processo quando virou de costas após o som do tiro do canhão, agarrando no rádio que segurava debaixo do braço como se sua vida dependesse disso.

– Você tá bem, Skye?

– T-tô, bora!

Após um breve momento de desnorteio e com alguma ajuda de Jake, Skye conseguiu se levantar, Jake correndo logo em frente e fechando a distância entre si e o homem suspeito que refletia o seu terror em seus olhos. Ele tentou vocalizar o seu medo, porém não saíram nada além de gritos de puro medo de sua garganta, confundindo um pouco Jake, que levantou as mãos no mesmo instante.

– Ei, ei, calma aí! Tudo o que a gente quer é o rádio de volta. Se você entregar ele agora, eu consigo te prometer que a gente te leva pra estação sem ninguém encostar um dedo em você.

– …Não… – O sujeito sussurrou, balançando a cabeça, seu rosto escondido pelo capuz da jaqueta rasgada que usava, seus dentes rangendo constantemente enquanto tremia. – …Não, não, você não entende…! Eu não posso… isso é minha vida! NOSSA vida! Se você soubesse, se a criança soubesse, eu…!

– Do que é que você tá falando? – O rosto de Jake contorceu com uma mistura de constrangimento e confusão, inclinando um pouco a cabeça para o lado. Não era a primeira vez que havia lidado com um lunático, mas definitivamente era um dos mais esquisitos que havia encontrado.

– …Ah. Eu vejo. Agora é tarde, não é?

Em um ato de estranha frieza, o sujeito lentamente pousou o rádio ao seu lado, caminhando em frente enquanto retirava o capuz da cabeça, deixando o cabelo desengonçado flutuar com a brisa que passava no topo do prédio. Era um homem ruivo, olhos verdes enterrados em seu rosto como alguém que não conhece a definição do verbo dormir, barba mal feita que crescia de forma irregular em torno de seu queixo, queimaduras estampadas na cara de forma a representar alguma forma de iconografia. O homem abriu a boca por um momento, como se fosse falar, mas simplesmente respirou fundo, fechando os punhos, um silencioso gesto que Jake entendeu muito bem. Pelo motivo que fosse, ele não estava disposto a entregar o rádio, e Jake não se preocupava muito com os detalhes. Somente com garantir que ele não fosse ganhar o confronto em que os dois agora se encontravam, muito menos machucar Skye.

Com um passo para o lado, Jake rapidamente esquivou de um rápido golpe que tinha como alvo seu rosto, respondendo com um soco que desferiu abaixo da costela do oponente, causando com que este perdesse o ar por um momento, tossindo em desespero antes de perder a concentração ao sentir o cotovelo do faz-tudo partir o seu nariz e o fazer cair para trás. Mas ele foi insistente, se levantando logo em seguida, o repulsor afixado à suas botas sendo ativado no mesmo segundo, causando com que fosse lançado na direção de Jake com uma brutal investida. Jake cambaleou para trás, por sorte mantendo o equilíbrio, colocando o pé para trás e evitando receber um cruzado de direita. Mas ao ter tomado um momento para se recompor, permitiu ao homem com que continuasse na ofensiva, este ativando um dos repulsores na bota esquerda, permitindo com que levantasse a perna a velocidades impossíveis e dirigindo o bico da bota no queixo de Jake.

Jake rolou para o lado, colocando uma mão no queixo. Sentia um gosto metálico se acumulando na boca, e com a força que havia acabado de ser acertado, estava surpreso que não havia perdido um dente. Ao ver o estado de Jake, Skye levantou o canhão, tentando concentrar a mira enquanto apontava no inimigo, que ainda a ignorava enquanto corria na direção de Jake. O repulsor de sua bota esquerda foi ativado, causando uma cratera no chão conforme saltou, procurando cair em cima de Jake com os dois pés, mas o faz-tudo foi capaz de esquivar, se jogando para o lado e saltando de volta a ativa, limpando a sujeira do canto do rosto com o pulso antes de rapidamente engajar o sujeito em combate próximo novamente.

Skye não conseguia se concentrar, muito menos mirar no sujeito. Não era como se nunca houvesse treinado com a arma. Afinal, acreditava ela ser a única coisa que ela tinha como talento especial, a arma somente escutando a cada um de seus comandos. Mas ao manter o dedo em cima do gatilho, se questionava se afinal seria capaz de acertar o sujeito. Não iria o matar, mas tinha o medo que permeava em sua mente, lhe fazia questionar se o que faria era certo ou errado. Tinha medo de repetir o passado, e tinha medo de falhar não só a Jake, mas a si mesma.

Jake mantinha a vantagem no combate, as suas experiências prévias refletidas em seu corpo e mente, cicatrizes e traumas que nunca realmente desapareceram. Não iria se deixar ser derrotado por alguém como esse sujeito, acreditava ele, e ao fim do dia, seria capaz de rir sobre o incidente. Mas ao sentir o peso do chute que havia recebido em seu lado, peso esse atribuído ao peso do repulsor que o sujeito havia plantado em suas botas, equipamento de nível militar com o poder de criar uma força repulsiva com capacidades destrutivas, Jake começava a duvidar se seria tão fácil quanto parecia. Era pior quando levava em conta o homem com quem lutava, que não parecia ser alguém que tinha medo de quebrar alguns ossos para demolir os seus.

Skye conseguia sentir suas mãos tremendo enquanto mirava o canhão, a incerteza tomando por completo o seu raciocínio, sua visão agora em dobro enquanto questionava a sua própria utilidade na situação, na missão, ou mais. Ela não queria falhar agora, havia prometido para Jake que não iria o decepcionar, mesmo que este tenha sido extremamente paciente e cuidadoso com ela. Ela queria provar que era capaz de lutar agora, que podia o acompanhar e o ajudar, era o seu sonho. Mas aqui se encontrava Skye, no campo de batalha, em um momento real, tão real como a tanto tempo atrás, e com o mesmo medo de antes. Ela não conseguia nem mesmo depender de si mesma, como seria ela capaz de deixar com que Jake dependesse de si?

Mas ela teria de tentar. Não só por Jake, ou pelo sujeito que o atacava, ou pelo rádio de Lilith, mas por si mesma. O que importava naquele momento era acertar o tiro, dar a chance para que Jake conseguisse vencer, e só… puxar… o gatilho.

Ao perceber uma familiar luz no canto de sua visão, Jake rapidamente agarrou na gola da camisa do homem, desferindo um soco violento contra ele e o empurrando para trás com uma investida. Havia colocado força o suficiente para colocar distância entre os dois, e sabia muito bem que ele seria capaz de cruzar essa distância novamente se utilizasse um dos repulsores novamente, mas Jake já havia se garantido da própria vitória. O raio de pura força concussiva explodiu para fora do canhão, executando sua trajetória em um piscar de olhos, acertando o sujeito em cheio em um breve momento de surpresa. Não foi o suficiente para que este fosse nocauteado, mas permitiu com que Jake completasse a missão, com uma boa e devida joelhada no rosto.

O homem caiu de costas, rapidamente perdendo a consciência ao sentir sua cabeça batendo contra o chão fragmentado. Jake suspirou, chacoalhando um pouco a mão antes de olhar na direção de Skye com um sorriso de alguém que sentia um enorme orgulho, um orgulho que Skye não sentia merecer ainda. Mas ela sorriu de volta, se levantando e jogando o canhão de volta nas costas, segurando na alça dele conforme ele se transformou novamente em um sólido simples.

– Você conseguiu! – Jake correu em direção a Skye, abraçando ela sem pensar duas vezes. – Eu sabia que você conseguia!

– Eu to… sufocando…

– Oops, desculpa. – Ele deu uma risada, andando para trás e garantindo com que Skye tivesse espaço o suficiente para se sentir confortável. Olhou de relance para o criminoso nocauteado, cruzando os braços. – Mas mesmo assim, isso foi muito bom! Eu não sei se eu conseguia sem você.

– Óbvio que você conseguia, eu só… eu só atirei.

– E você acha que isso não foi mais do que o suficiente? – Ele sorriu, um sorriso genuíno, de tal modo que Skye não tinha como responder, percebendo que Jake não iria aceitar que ela se depreciasse novamente. Talvez fosse pelo melhor, acreditava ela.

Leves múrmuros escaparam dos lábios do criminoso, que parecia estar reganhando a sua consciência, alarmando a dupla. Mas antes que Skye pudesse empunhar o canhão novamente, Jake pousou uma mão em seu ombro, balançando a cabeça. Ele caminhou até o sujeito mal acordado, se agachando e agarrando nos pulsos dele com uma mão. Ao unir seus pulsos com dada firmeza, retirou de um dos seus bolsos algemas, dando assim como capturado o ladrão de rádios.

– É melhor prevenir do que remediar, né? – Jake grunhiu ao se levantar, sentindo a brisa da cidade esfriar. Se esticou um pouco, caminhando até o rádio que havia sido anteriormente pousado no chão, milagrosamente intacto.

– Uhum.

Os dois pararam em frente ao rádio, se agachando enquanto Skye não conseguiu se conter, futricando com o rádio no instante que se aproximou dele, mas pela primeira vez, Jake decidiu com que ela apertasse nos botões que quisesse. Era um botão aqui, uma rodinha que ela não sabia o que fazia ali, até que ela foi capaz de ligar o rádio. Um som de estática poluía o ar, como era de se esperar, mas alguma coisa captou a atenção de Jake. Não a estática em si, mas a vibração que sentiu em uma de suas pochetes. Logo sacou o seu equipamento que havia utilizado para localizar o rádio, ativando o ecrã, onde mostrava um ponto logo em sua frente, obviamente. Mas percebia também que as ondas de rádio que estava recebendo não vinha do rádio em sua frente.

– Jake?

– …Isso não faz sentido.

– O quê?

– As ondas que eu to captando aqui… elas não tão vindo do rádio.

– Ué? Então tão vindo de onde?

– Do…

Jake rapidamente olhou para cima, onde o céu estava limpo, sem uma única nuvem a vista. Não via absolutamente nada de estranho. Mas sentia algo estranho.

– …Do espaço?

Spoiler!

FINALMENTE!!! Postei o primeiro capítulo!! Eu queria já a muito tempo ter feito isso, eu já tinha o rascunho desse capítulo mofando a MESES, mas foi graças ao Sushi que eu tive um flash de inspiração pra acabar isso e postar aqui!! No momento em que eu to escrevendo isso, eu ainda não acabei as artes extras que eu queria acrescentar, já que é suposto ser maior parte texto com alguns desenhos pra não ser muito secante ler tudo, mas... É... Espero que tenha sido interessante pelo menos!

0 ou 0

Editado dia 24/04/2009 às 01:59, Postado dia 24/04/2009 às 01:52








  • NeonTFlame NeonTFlame em 24/04/2009 às 02:16 >>1196

    tome cuidado com ladroes de radio nunca se sabe de onde eles vem

    mt foda !!!

Esse site é melhor visualizado em
800x600 px, com High Color (16 bits).

Webmasters: Neon T. Flame e Fupicat



TERMOS DE USO - REGRAS PARA PESTINHAS COMO VOCÊ - CRÉDITOS