por Sushi
"Nunca mais vou voltar naquele museu", uma ova. Parte de mim queria estar lá, outra parte se recusava. O medo que senti e a adrenalina se juntaram e isso virou meu combustível pra continuar. Eu não sei por quê, mas eu quero voltar. É como um vício — e eu nunca nem sequer tinha experimentado algum tipo de vício naquela época pra ao menos saber como era a sensação.
A vontade de saber por que aquilo tudo aconteceu era demais. Eu precisava voltar. Eu TINHA QUE VOLTAR.
De manhã, eu estava cansado de tanto pensar durante a madrugada inteira. Não consegui tomar meu café da manhã e meus pais até ficaram preocupados. Falei que estava tudo bem e então meu vô disse:
— Lovari, eu sei que mudanças são difíceis, chatas e até mesmo agitadas… mas não fique desse jeito, ok? Vovô vai cuidar de você.
Não eram as palavras que eu procurava, mas de alguma forma me acalmaram. Um segundo depois, ele me entrega uma nota de cinquenta e sussurra perto de mim:
— Não mostra pra sua mãe.
Eu dou uma risada e um abraço nele.
Meu objetivo naquele dia? Voltar naquele maldito museu. Mas eu não ia sozinho. Queria chamar alguém do grupo… mas quem exatamente? Rox? Nah, ela tava muito abalada pra isso. E de jeito nenhum eu ia chamar o Eric. O único com quem eu poderia contar era o Marco… mas duvido que ele aceitasse. Na real, ele era o que mais se tremia durante o tempo no saguão. Mas não custava tentar.
Puxei meu celular e liguei:
— Marco? Alô? Cara, eu sei que parece loucura, mas eu preciso que você me escute nessa. Eu… tô querendo ir pro museu…
— O quê?! Qual é a porra do seu problema?! Por que você quer voltar pra lá???
— Eu sei, eu sei, é estúpido. Mas tem algo que tá puxando meu corpo pra lá. Algo que eu preciso fazer. Algo que, se eu não for ver ou fazer, vou me arrepender. Parte de mim não quer ir, mas… eu me decidi. Se conseguimos voltar uma vez, então o que nos impede de voltar de novo…?
— … Eu… uh… ugh, que saco. Pelo jeito eu não sou o único… Eu tô rejeitando o máximo que posso, mas também sinto que tem algo que eu preciso fazer lá. E, que nem você disse… a gente já voltou uma vez… ugh, por que logo eu? QUE SACO!! Me encontra na esquina de sempre, vou me arrumar… Melhor deixar a Roxse e o Eric de fora dessa vez.
Simples assim. Consegui recrutar o Marco pra voltar comigo ao museu. Foi tão fácil que fiquei sem palavras. Ele desligou sem me deixar responder. Incrível, né?
Bem… não tão incrível considerando que a gente tava indo pro museu DE NOVO. Mas a gente releva isso.
Ah, sim. Tive a brilhante ideia de levar um facão comigo. Não sei o que tava passando na minha cabeça na hora.
Nos encontramos na esquina e fomos conversando no caminho.
— Tem algum plano quando chegarmos lá de novo? — perguntou Marco.
— Honestamente? Não. Mas eu tava querendo tentar abrir aquele portão imenso que a gente viu perto da alavanca — respondi.
— O que eu tô pensando em voltar pra lá de novo, hahahaha… — disse Marco, com a voz ficando cada vez mais baixa.
Como eu disse: era um lugar "seguro". Assustador, obviamente. Mas por que a gente teria medo de lá? Não vimos nada de errado, além do que aconteceu durante os efeitos da primeira alavanca. E essa é a parte que me deixava com o pé atrás: aquela dor insuportável, o "nada"... Aquilo me assustava.
Chegando lá, o cara que vendia os tickets olhou pra gente e perguntou:
— Vocês de novo? Dois dias seguidos? Ou vocês amam história… ou tão planejando um roubo enorme! Hahahahaha.
Eu e Marco ficamos envergonhados, mas rimos da piada. Aquilo deixou o clima um pouco mais tranquilo entre nós.
E então estávamos lá de novo, na frente da alavanca. Eu tremia pra puxar… até que Marco, sem mais nem menos, foi na minha frente e puxou.
Mas foi diferente.
Tudo começou a se distorcer. Eu vi rostos diferentes, as luzes se apagaram, caí no chão de tanta tremedeira… E quando percebi, estávamos novamente no saguão.
As mesmas estátuas, com suas caras rachadas, só metade à mostra, nos encarando.
Vi algumas escrituras numa língua que eu não entendi. Resolvi tirar uma foto — até que percebi algo: minha bateria estava se esgotando muito rápido. Não fazia sentido. No mundo fora do museu, o tempo passava devagar. No museu… era como se o tempo passasse 60x mais rápido. Uma hora ali dentro = 1 minuto do lado de fora.
Decidi não pensar muito nisso e só capturar o máximo de coisas que eu podia.
Fui para o portão. Eu e Marco ficamos encarando ele, sem saber o que fazer.
— E então… o que fazemos? — perguntou Marco.
— Uh, sei lá. Vou tentar empurrar, eu acho? — respondi.
Quando empurrei, fiz um corte leve na mão. Meu sangue escorreu pela porta… e então ela começou a brilhar. Foi aí que percebi: isso era um sacrifício involuntário, algo que eu tinha lido recentemente em livros de mitologia.
Marco tentou me puxar, mas a porta começou a se abrir. Peguei o facão da minha bolsa, só por precaução… E o que tinha depois do portão era um tipo de biblioteca, com um elevador no final.
Na mesa, havia um papel com algo que eu já tinha visto antes. Marco olhou e falou:
— Isso se parece com o... Inferno de Dante?! Pera… e se a gente estiver no Inferno de Dante??? Aqui é o Limbo então?!
Marco começou a se desesperar.
Foi aí que percebi que estávamos em alguma recriação do Inferno de Dante. Não era 1:1… então era uma adaptação? Nada fazia sentido. Peguei alguns livros e tentei ler. Era a mesma língua das escrituras das placas.
Lembro de um livro com a capa muito grossa… mas só tinha uma página escrita:
"Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate."
Comecei a hiperventilar. Comecei a chorar. A ansiedade bateu. Como assim Inferno de Dante?! Por que naquele museu?!
Teorias passaram pela minha cabeça. Caí no chão, sem ar. Eu não sabia o que fazer. Em que carambas eu tinha me metido?
— Se esse é realmente o Inferno de Dante… então aquele elevador, ele… — disse Marco.
— Vamos voltar. A partir daqui, é pior. Vou tentar levar um livro pra traduzir em casa... — respondi.
Me levantei e peguei um livro. Mas quando tentei sair com ele pelo portão, fui LANÇADO de volta pra biblioteca. Bati de costas na parede e fiquei sem ar. Voei tão rápido que podia ter quebrado algum osso.
— LOVARI?! VOCÊ TÁ BEM??? — gritou Marco, preocupado.
— Puta merda… minhas costas — respondi, sem fôlego. — Ok, aprendemos que não devemos levar os livros...
Me levantei com a ajuda dele e fomos até a alavanca. Chegamos com medo, saímos com medo.
Ao puxá-la, tudo se distorceu até voltarmos ao normal. Lá estávamos, de novo, no museu. Decidimos pegar alguma coisa pra comer na cafeteria. Estava bem cheia aquele dia. Sentamos e decidimos:
Vamos deixar o museu de lado. Evitar ao máximo.
O que a gente encontrou não era simples. Não era uma brincadeira. Aquela merda era séria de verdade.
Cara, eu tava só dois dias na cidade e já descobri o Inferno nela. Incrível, né?
Até que vi uma estátua familiar — era de Platão, mas rachada também. E então… ela virou a cabeça rapidamente pra mim.
Fiquei pálido na hora. Marco percebeu e olhou… mas quando ele viu, a escultura apenas voltou ao normal.
— Você tá bem? — perguntou Marco. — Tipo, eu sei que a gente viu coisas que não deveria lá… mas a gente já voltou.
— Eu acho que tô alucinando… — respondi.
Era cansaço. Eu tava desgastado mentalmente. Terminei meu bolo, tomei meu café e voltamos pra casa. De novo, um silêncio que deixaria qualquer um surdo. Só nos despedimos, sabendo o que o outro tava pensando.
Mas aí vimos Roxse e Eric conversando.
Eles nos avistam e gritam:
— EEEEEEEEEEEEIIII A GENTE TÁ AQUI!
Eu e Marco não tivemos escolha. Achamos que ela sabia que tínhamos ido ao museu. Mas, chegando perto, ela mostra o que tinha ganhado:
UMA KATANA DE VERDADE?!
Tipo… eu sabia que ela fazia alguma arte marcial, mas não é exagero dar uma espada de verdade pra alguém de 15 anos??
A conversa fluiu, e percebi que todos evitavam falar sobre o museu. Dei uma desculpa e fui pra casa.
Passei o resto do dia na cama e descobri que o texto no livro significava:
"Abandonai toda esperança, vós que entrais."
Faz total sentido agora que eu sabia onde a gente tinha se metido.
Editado dia 24/07/2008 às 02:35, Postado dia 24/07/2008 às 02:35
NeonTFlame em 24/07/2008 às 16:54 >>870
nao e todo dia que se ve o fucking inferno de dante numa cidade do interior